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O Mundo de Sofia – Jostein Gaarder

domingo, maio 30th, 2010

Heráclito, contemporâneo de Parmênides, era originário de Éfeso na Ásia Menor (540-480 a.C). Segundo ele, as transformações constantes eram a verdadeira característica da natureza. Podemos dizer que Heráclito confiava mais nas impressões dos sentidos do que Parmênides que afirmava que “nada se transforma e consequentemente as impressões dos sentidos não podem ser dignas de confiança”.

 “Tudo flui”, segundo Heráclito. Tudo está em movimento, e nada dura eternamente. Por isso, “não podemos tomar banho duas vezes nas águas do mesmo rio”. Porque quando entramos no rio pela segunda vez, tanto nós como o rio estamos mudados.

Heráclito explicou, também, que o mundo é caracterizado por contrários constantes. Se nunca estivéssemos doentes, não compreenderíamos o que é a saúde. Se nunca tivéssemos fome, não gostaríamos de comer. Se nunca houvesse guerra, não saberíamos apreciar a paz, e se nunca fosse Inverno, não saberíamos quando chega a Primavera.

É importante que a razão e a reflexão não controlem aquilo que se desenvolve melhor de uma forma livre, espontânea e inconsciente. Uma fábula ilustra bem isto:

Era uma vez uma centopéia que com as suas cem pernas era muito boa a dançar. Quando dançava, os animais reuniam-se no bosque para admirá-la e todos estavam muito impressionados pela sua habilidade. Só um animal não podia suportar que a centopéia dançasse, o sapo…

Como é que posso impedi-la de dançar? Pensou o sapo. Não podia dizer que não gostava da dança nem que era melhor a dançar do que a centopéia. Seria um absurdo. Por fim, tramou um plano terrível.

Escreveu uma carta à centopéia: “Ó incomparável centopéia! Sou um devoto admirador da sua requintada dança. Gostaria de saber como te moves a dançar. Levantas primeiro a perna esquerda número 22 e depois a perna direita número 59? Ou começas por levantar a tua perna direita número 26 antes de levantares a tua perna esquerda número 44? Aguardo ansiosamente uma resposta sua. Saudações cordiais, Sapo.”

Quando a centopéia recebeu esta carta, refletiu pela primeira vez na sua vida no que fazia primeiro quando dançava. Que perna movia em primeiro lugar? E que perna vinha a seguir? O que lhe parece que aconteceu? A centopéia nunca mais voltou a dançar.

É justamente isso que acontece quando a fantasia é sufocada pela razão.