Empresa permissiva, empresa sem valor

Os japoneses utilizam dois ideogramas para escrever a palavra honestidade: um deles significa “falar” e o outro “fazer”.

“Nos últimos anos houve um colapso da confiança no mundo empresarial. O que se presume é que todo mundo age por cobiça, se não pela desonestidade, para enriquecer às custas dos outros. Esse é o resultado dos escândalos corporativos que temos presenciado. Em empresas cujo exemplo da liderança é indevido, você encontra pessoas que cruzaram os limites do branco para o cinza e deste para o preto. Em virtude do mau exemplo que vem de cima, da agressividade com que as metas são estabelecidas ou do meio pelo qual aqueles que atingem tais metas são recompensados, de uma hora para outra, pessoas inteligentes e honestas aceitam tudo isso como algo correto. Mas o que fizeram foi ilegal, imoral ou criminoso. Não podemos admitir que a euforia diante da extraordinária evolução do país na frente econômica nos leve a esquecer questões igualmente fundamentais. Refiro-me ao perigo de a sociedade brasileira estar deixando de lado alguns valores básicos, como a honestidade, o zelo com os recursos públicos. Além de desviar recursos escassos de investimentos no bem comum, a corrupção premia a “esperteza”, destrói a legitimidade da democracia e a própria noção de justiça”.

Reproduzo as citações acima de outra publicação. Parte foi extraído de uma entrevista do presidente do Conselho da KPMG, Michel Rake, á Exame TV. A segunda é parte do recente discurso de Roberto Civita, presidente da Editora Abril, na cerimônia da premiação de Melhores e Maiores. Ambos diagnosticaram uma doença fatal que se espalha pela sociedade e pelas empresas. Suas causas são o abuso e a permissividade. Essa espécie aparentemente civilizada de lei das selvas justifica todo tipo de malandragem, desvio e acordos espúrios. Em um país ou em uma empresa em que o que vale é “ garantir a sobrevivência” a qualquer custo, as pessoas perdem a noção do que é certo ou errado.  Daí a importância dos presidentes como motivadores das pessoas. Mas o comprometimento e os valores só são verdadeiros se no comando há integridade. Isso é, como lembra o filósofo Mário Sérgio Cortella, ser inteiro – agir de acordo com o que prega.

Os japoneses utilizam dois ideogramas para escrever a palavra honestidade: um deles significa “falar” e o outro “fazer”.

Ser honesto é isso: fazer o que se fala. Não por acaso esse é um dos sete códigos dos samurais, uma filosofia de vida que influenciou gerações, justamente pelo exemplo de integridade de seus líderes. Os outros seis códigos são: justiça; coragem; compaixão; cortesia; honra e lealdade.

A cultura de valor, que tanto desejamos só frutificará com o exemplo de lideranças responsáveis. Os princípios éticos que devem embasar a vida de todos, e principalmente dos que ocupam uma posição de comando, são milenares: a defesa de direitos; o respeito e a valorização das pessoas. Nossos líderes sabem o que falar e o que fazer. Confio que, cada vez mais, tomarão consciência de que só é possível inspirar, engajar e superar por meio da integridade.

Texto extraído de matéria de Vicky Bloch – psicóloga e consultora de carreiras.

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4 Comentarios para “Empresa permissiva, empresa sem valor”


  1. Rogerio Arita

    Simples assim – Falar e Fazer!
    Otimo texto. Parabéns!


  2. Beth

    Nem sou capaz de descrever o quanto lamento o fato do mundo caminhar, caminhar, não, correr velozmente na direção da desonestidade. Cada vez mais se veem pessoas se auto intilulando corretas e agindo de maneira oposta. O pior é que essas atitudes são cada vez mais premiadas, principalmente no mundo corporativo, com o nome de “pessoas bem articuladas”. Eu ein!?!?


  3. Rute Gomes

    Cissa, querida! Sempre leio seus textos, me encanto com os temas abordados de forma tão clara, tão ímpar, tão… Cissa! Mas jamais me atrevi a comentar… contudo, especialmente neste, não poderia deixar de registrar minhas “pegadas” por aqui. Você foi responsável por reativar em minha memória muitas lembranças boas, que me tocam profundamente, particularmente no que diz respeito ao discurso do Doutor Civita. Tive a honra de trabalhar durante alguns anos em empresa do Grupo Abril e pude constatar que na Família Civita discurso e prática são absolutamente coerentes! Lá existe “Código de Ética e Conduta” e este não se resume num panfleto “pró-forma”. Lá não se permite abusos de poder, de autoridade, assédio moral, etc. Lá o exemplo vem de cima. Numa época em que fomos transferidos para a sede do Grupo, houve um princípio de discriminação porque nossos crachás eram diferentes, ao tomar conhecimento do assunto, o próprio Doutor Civita determinou a unificação dos modelos dos crachás e mandou um recado: no Grupo Abril, não se tolera discriminação e/ou desrespeito a qualquer colaborador! Tão simples, tão motivador e… tão eficaz!
    Recentemente, a biografia do José Alencar (ex-vice presidente da república) me despertou o mesmo sentimento: ainda existem corporações sérias, comandadas por empreendedores extremamente competentes, mas, sobretudo, HUMANOS!
    Por fim, seu post também me lembrou a citação de Martin Luther King: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.”
    Nem todos os bons se calam Cissa! Você é exemplo VIVO disso!
    Obrigada por compartilhar tudo isso conosco!
    Beijo enorme!


  4. Alessandra

    Não estou mais no mundo corporativo, mas vejo que em todo lugar o ser humano é assim. Infelizmente a única forma de acabar com isso é continuarmos com nossos valores, mesmo presenciando dia após dia o triunfo da mediocridade e do mau caratismo.