Para escrever é preciso ler!

“Quem pergunta quer saber; quem não pergunta quer errar”. Pdre. A. Vieira

Quem não pergunta é porque, em princípio, já deve saber tudo. E quem pensa que sabe tudo…nada sabe. Por muito que saibamos, e por muitas verdades verdadeiras que conheçamos, nunca sabemos tudo. Nem aquilo que pensamos saber é suficiente, porque a realidade é polifacética, many-sided, surpreendente, dinâmica, complexa. Sempre reserva recantos e até mesmo continentes desconhecidos. Perguntar é um excelente exercício intelectual. Para uma pessoa recuperar-se de uma paralisia não é recomendável que repouse, mas que aprenda a mover-se de novo. Para pensar, precisamos mover-nos intelectualmente, sair de nós mesmos, investigar a realidade.

Cercados de informações confusas, entrecruzadas, labirínticas, sentimo-nos zonzos, paramos de pensar. Para vermos o que muitas vezes se passa dentro da nossa cabeça, basta ligar a TV e assistir a essa sucessão de imagens, de temas fantásticos e de enfoques contraditórios, em propagandas, programas e telejornais. Resultado: somos envolvidos pela banalização de tudo, porque tudo passa a ter a mesma importância, ou a mesma “desimportância”, seja uma guerra, seja uma piada, seja uma partida de futebol, seja uma decisão política, seja um novo apartamento, seja um novo presidente, seja uma previsão metereológica…

Há excesso de informações e carência de formação. Excesso de dados e ausência de assimilação. Excesso de imagens e diminuição de conceitos. Excesso de mensagens e desaparecimento de reflexão.

A arte de ler bem gera em nós, com o tempo, uma segunda natureza. Ao nosso “eu” acrescentam-se e mesclam-se contribuições vivas de outras cabeças e corações humanos. Assimilando, digerindo estas contribuições, estaremos nos auto-educando em vista de um aperfeiçoamento pessoal que, por sua vez, se refletirá em nossas ações, e, dentre elas, em tudo aquilo que dizemos e escrevemos. A explicação para esta influência tão decisiva é que não conhecemos as coisas que nos rodeiam de uma forma simplesmente epidérmica. Conhecemos por assimilação, assimilamos o que nos é entregue ao olhar, ao tato, aos ouvidos, e o tornamos nosso pela abstração, que é este poder inato de captar a essência da realidade.

Etimologicamente, “assimilar”, significa que eu me torno semelhante, símil, àquilo com que travo conhecimento. Não é à toa que na linguagem corrente se diz: “Eu me identifiquei com esta pessoa, com este livro, com esta pintura”. Sim, ocorre uma fusão espiritual entre aquilo que conhecemos (as imagens, os sentimentos, os conceitos…) e nós mesmos. E, nesta união, modificamo-nos um pouco, somos de certa maneira alterados – sem perdermos a nossa identidade pessoal, é óbvio.

O poeta Mário Quintana dizia, em tom sério, mas de brincadeira, que algumas pessoas entram na igreja para não rezar. Na mesma linha de raciocínio, podemos dizer que algumas pessoas entram na escola para não estudar, ou entram numa empresa para não trabalhar, ou ingressam no serviço público para não servir o público, ou estudam filosofia para não fazer filosofia, ou são animais racionais e não pensam.  

Pensar é usar a inteligência. Inteligência vem da palavra latina intus-legere, ler (legere) dentro (intus). Dentro de quê? Dentro da realidade.

Pensar não é criar a realidade, é lê-la por dentro. E pensar leva à expressão, na medida em que o esforço de ver a realidade nos obriga a defini-la para nós mesmos usando as nossas próprias palavras, construindo definições, frases, raciocínios.

Escrever é reunir vida nas palavras. Escrevemos aquilo que conseguimos pensar através da experiência pessoal. O esquimó tem pelo menos seis palavras diferentes para designar o gelo. Um pintor sabe diferenciar e nomear vários azuis, vários vermelhos. Quem conhece mais a realidade adquire mais palavras para identificá-la e identificar os seus matizes, a sua complexidade.

A leitura nos afasta do aqui – agora, leva-nos para o além, o além-fronteira, o além-mar, o além-mundo. E é indo para tão longe daqui que o leitor caminha por dentro do livro, para fora do livro. Para dentro da vida.

Gabriel Perissé é alguém que admiro muito, meu ícone intelectual, palestrante, doutor em Filosofia da Educação (USP), escritor autor de vários livros sobre linguagem, escrita criativa, educação, leitura e formação docente e estética.

Este texto é de sua autoria, extraído do livro: Ler, pensar e Escrever.

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