LITERATURA

Toda luz que não podemos ver

quarta-feira, setembro 27th, 2017

A Segunda Guerra parece ser um tema inesgotável. De tempos em tempos um romance se destaca e nos envolve, trazendo a nossos dias, o que parece ser tão remoto e cada dia mais irreal.

“Toda Luz que não podemos ver” reconstrói com detalhes aquele período. Marie-Laure é uma garota francesa, órfã de mãe que vive com seu pai que é chaveiro do Museu de História Natural de Paris. Aos seis anos ela fica cega e o pai, em busca da autonomia da filha, constrói uma maquete em miniatura do bairro onde eles vivem. Com isso Marie-Laure pode andar com uma bengala com a maior desenvoltura. Mas, chega a guerra e com ela a ocupação nazista. Eles fogem para uma cidade do interior, Saint-Malo, onde mora um tio avó da menina. Com eles, o pai leva aquilo talvez seja o maior tesouro do Museu Natural de Paris.

Em uma região de minas de carvão da Alemanha, Werner vive com a irmã mais nova em um orfanato. Todas as noites eles ouvem um programa de rádio, em francês e mesmo sem entender, Werner se apaixona pela magia do rádio. Um dia encontra um aparelho quebrado no lixo. Ele o conserta e a partir daí começa a consertar os aparelhos de todos que o procuram, aliando a seu talento uma prática enorme, que lhe garante uma vaga em uma escola nazista. Com o avanço da guerra ele é designado para uma missão difícil: tentar identificar de onde vêm as transmissões da Resistência Francesa em… Saint Malo.

O ano é 1944, próximo do final da guerra. Os Estados Unidos estão arquitetando o bombardeio que vai terminar a guerra. Falsas pistas são espalhadas, as transmissões de rádio são cada vez mais importantes e com o pai preso, a menina cega que conhece a casa do tio avó de memória, se esconde embaixo da cama, no andar de cima. No porão, Werner, o garoto nazista se esconde buscando o sinal de transmissão da Resistência.

O escritor Anthony Doerr foge do maniqueísmo. Não conseguimos deixar de gostar, pelo menos um pouco, de Werner por conta de sua vida em um contexto tão trágico.

O livro foi lançado em 2014 em 2015 ganhou o Pulitzer de Melhor Ficção, além de muitos outros prêmios. É um livro delicado, envolvente, que prende sua atenção do começo ao fim. Vale ler!!!!

Eu carrego o seu coração comigo E.E. Commings

quarta-feira, janeiro 20th, 2016

Eu carrego o seu coração comigo.

Eu o carrego no meu coração.

Eu nunca estou sem ele

Aonde quer que eu vá, você vai, minha querida.

E o que quer que eu faça sozinho, foi você, minha querida.

Eu não temo o destino.

Porque você é o meu destino, minha doçura.

Eu não quero o mundo, por mais belo que seja.

Porque você é o meu mundo, minha verdade.

Esse é o maior dos segredos que ninguém sabe.

Você é a raiz da raiz, é o botão do botão.

E o céu do céu de uma árvore chamada Vida.

Que cresce mais alto do que a alma pode esperar

Ou a mente esconder.
 Este é o milagre que distância as estrelas.

Eu carrego o seu coração.

Carrego no meu coração.

 

 

I carry your heart with me (I carry it in)

I carry your heart with me

(I carry it in my heart) I’m never without it

anywhere I go you go, my dear; and whatever is done

by only me is your doing, my darling

I fear no fate (for you are my fate, my sweet

I want no world for beautiful they are, you are my world, my true

Here is the deepest secret nobody knows

(here is the root of the root and the bud of the bud

and the sky of the sky of a tree called Life; which grows

higher than soul can hope or mind can hide

and this is the wonder that’s keeping the stars apart

I carry your heart

(I carry it in my heart)

Je porte ton coeur avec moi

Je le porte dans mon coeur

Je ne le quitte jamais

Partout où je vais, tu vas, ma chère ;

Et tout ce qui je fais moi même,

C’es’t  toi qui la fait, ma chérie

Je ne crains nul destin

Car tu es mon destin, ma douce

Je ne veux pas d’autre monde

Car  tu es mon monde, ma verité

Là, profondément enfoui

Est le secret que personne ne connaît

La racine de la racine, le bourgeon du bourgeon

Et le ciel du ciel d’un arbre appelé vie;

Qui croît plus haut

Que l’âme peut espérer

Ou l’esprit cacher

C’est la merveille qui tient les étoiles distantes

Je porte ton coeur

Je le porte dans mon coeur

Outlander – a viajante do tempo

quinta-feira, abril 9th, 2015

OUTLANDER Capa livro 1

Ganhei o livro Outlander – A viajante da minha querida  amiga Cris Tibau no meu aniversário. Até então nunca tinha ouvido falar do livro que já vendeu mais de 20 milhões de cópias e no ano passado foi adaptado para série de televisão nos Estados Unidos, já foram exibidos 8 episódios. Agradeço até agora a Cris porque adorei a trama. A enfermeira Claire Randall reencontra seu marido Frank no final da Segunda Grande Guerra, em 1945. Ela é enfermeira e eles viajam para uma segunda lua de mel em Inverness nas Ilhas Britânicas, depois do forçado afastamento por causa da guerra.

Outlander_pedras Escocia

Claire começa a passear pela região, em busca de raízes medicinais e inexplicavelmente ao encontrar um círculo de pedras onde se realizam rituais misteriosos, ela atravessa o tempo e vai parar na Escócia dominada por Clãs, no ano de 1743.

OUTLANDER_Jamie

Depois de muitas aventuras surpreendentes, ela encontra o seu salvador Jamie Fraiser. Um escocês muito alto, ruivo e corajoso, além de lindo.

OUTLANDER_Jamie kilt

A chamada para a história é muito apropriada: “E se o presente estivesse no passado?”

Outlander_série

No primeiro livro, o que ganhei, Claire descobre aos poucos o amor por esse escocês e luta entre sua lealdade ao marido, além é claro, do desejo de voltar à sua época e esse novo e avassalador amor. Já li o segundo e o terceiro livro. Estou adorando e ainda bem que existem mais quatro!!! Oulander_a escritora

A escritora, Diana Gabaldon é do Arizona,  apaixonada pela Escócia e confessa que seu marido é alto e ruivo… estou na torcida para a série vir para o Brasil e poder conferir esses personagens tão fantásticos, de um livro que é uma verdadeira e maravilhosa viagem.

Inferno de Dante e de Dan Brown

quinta-feira, outubro 10th, 2013

Inferno Dan Brown

O novo livro de Dan Brown nos leva até o coração da Itália. Uma viagem e tanto! O conhecido professor de Simbologia, Robert Langdon, acorda em um hospital, se recuperando de um tiro que quase o matou. Ele está com uma amnésia temporária  o que complica ainda mais a situação e abala a sua capacidade de decifrar os símbolos de uma das maiores obras literárias mundial, Inferno de Dante Alighieri. Conseguir decifrar esses símbolos pode significar salvar a vida de muitos e a sua própria. Numa corrida contra o tempo, sob a ameaça de um novo surto da Peste Negra no mundo, Langdon luta arduamente, sempre mesclando a arte, ciência futurística e muita emoção. Neste livro o timing de Dan Brown está recuperado. Se você não gostou muito do ritmo mais confuso de O Símbolo Perdido, pode mergulhar de cabeça em Inferno. Você vai gostar tanto quanto de O Código Da Vinci.

As Filhas de Rashi

quarta-feira, abril 3rd, 2013

As filhas de Rashi 1

Salomão Ben Isaac, mais conhecido como Rashi, foi um dos maiores estudiosos judeus de todos os tempos. São dele os primeiros comentários do Talmud – livros que contêm os debates em torno da Tora, a bíblia judaica. Isso um fato, uma verdade. Maggie Anton, historiadora americana, misturou verdades e fantasia para compor a trilogia “As filhas de Rashi – Amor e judaísmo na França medieval”. Os personagens são históricos, viveram em Troyes no noroeste da França, no século XI. Após cinco anos de pesquisa, a escritora conseguiu retratar nos livros, os costumes, a medicina e a religião na Idade Média.

JOHEVED- A filha mais velha de Rashi quer estudar a Tora para entender a essência da religião o que coloca o pai em um dilema, pois somente aos filhos era possibilitado ensinar a religião. As mulheres eram destinadas apenas ao casamento e a maternidade. Em pleno século XI, num mundo em que o conhecimento era interditado às mulheres, Rashi vai começar a dar aulas escondido a Joheved, sua filha mais velha e ela se encantará tanto com os ensinamentos que muitos anos depois terá que escolher entre o amor ao conhecimento e o amor conjugal.  

As Filhas de Rashi Miriam

MIRIAM – Segunda filha de Salomão Ben Isaac e Rivka tem sua história iniciada na segunda metade do século XI, período em que os judeus do norte da França ainda viviam tempos tranquilos e em paz com os cristãos. Diferentemente dos costumes ela se apaixona por um dos alunos de Rashi e ambos conseguem a aprovação dos pais. Loucamente apaixonados marcam o casamento e a poucas semanas da data, os pais do noivo veem comunicar que ele morreu. Viúva sem casar, Miriam se desespera e o consolo está no Talmud. Um novo casamento, agora arranjado, é providenciado. Comparações frequentes e uma dor sem fim tumultuarão essa relação além do fato de Judá, o novo marido, ter uma forte inclinação para os outros estudantes. Miriam, além de parteira da cidade, também enfrentará o preconceito, já que, na falta de um homem capacitado, será ela que terá que fazer as circuncisões dos meninos judeus.

As Filhas de Rashi 2

RAQUEL – A caçula é também a preferida de Rashi. Criada num momento de grande tumulto para as comunidades judaicas, pois o papa fez um apelo para acabarem com os “infiéis” que não aceitavam a divindade de Jesus, o que atingia todos os não cristãos.  As comunidades judaicas da Alemanha e França, eram muito bem estabelecidas, especialmente no comércio de vinho e peles e a partir dessas perseguições, muitas serão dizimadas e poucas sobreviverão.

Talvez a preferência acentuada de Rashi por essa filha seja porque ela foi a que passou mais tempo com ele em casa e no vinhedo, onde trabalhava com as outras irmãs. Estudiosa, como as irmãs, ela também o ajudou na transcrição de seus comentários sobre o Talmud. Raquel consegue se casar por amor, com Eliezer, que também era estudante na escola de seu pai. Ele faz parte de uma família de comerciantes de peles e por conta disso viajará muito, o que a fará infeliz, pois, apaixonada e igualmente interessada nos negócios, ela quer acompanhá-lo. O destino vai conduzi-lo ao estudo da astrologia na Espanha (Toledo, Sefarad) e a ela ao comércio e a agiotagem.  Lendo a história dessas três mulheres fortes, conhecemos vários preceitos do Talmud e mesmo para quem não tem interesse na história dos judeus, vale a leitura porque é uma envolvente lição de História. Para ler de uma irmã à outra!

O melhor é viver o momento

quinta-feira, março 31st, 2011

Um grande amigo reencontrado, o AC, indicou o livro do Heródoto Barbeiro ex-CBN. E eu nem sabia que ele tinha escrito livros, era professor de história e tantas outras qualidades. Gente competente que sabe aproveitar o tempo e é fiel às suas crenças. Sejam elas quais sejam, admiro quem as tem e vive dentro dos preceitos do que acredita.

Escolhi uma frase muito verdadeira sobre viver o momento presente e uma história que ilustra maravilhosamente bem a frase e o conceito.

A vida é muito curta para ser desperdiçada com discussões estéreis. Nada de viver no futuro, imaginando coisas que podem ou não acontecer, ou no passado, com lembranças e fatos congelados como nas fotos. Isso desvia a atenção do presente, impede o eu real de agir, inocula a ilusão e não permite que as pessoas conheçam o seu verdadeiro eu.

Um homem andava sob o sol forte e carregava nas costas uma pequena sacola de provisões. Atravessava um imenso campo de trigo. O ar estava parado e o vento descansava. Nada parecia se mover. A monotonia da paisagem era raramente quebrada por uma levre brisa que, vagarosamente, movimentava o trigo amarelo como uma imensa marola de um oceano manso. O homem caminhava sem olhar por onde andava, pisando o amarelo da paisagem.

Repentinamente, surgiu no alto de uma colina, um tigre. O animal viu sua presa e partiu para pegá-la. Diante do inesperado, o homem abandonou sua sacola e correu como nunca havia corrido em sua vida. A velocidade do tigre diminuia a distância entre o o caçador e presa, e ele percebeu que em mais alguns instantes seria dilacerado pelas garras do animal. Avistou um barranco em uma das bordas do trigal e atirou-se para lá. Descobriu que a saliência do terreno era a borda de um profundo precipício. Para escapar, esqueirou-se pela terra, agarrando-se no que podia. Na metade da descida, viu uma velha raiz que saia do penhasco e pendurou-se nela. Dali podia ver os olhos faiscantes do tigre, e só lhe restava continuar descendo. Olhou para baixo e identificou, no fundo do desfiladeiro, uma caverna. Na porta, a fêmea do tigre e os filhotes esperavam o alimento que o macho havia ido caçar. Agarrou-se ainda mais na raiz. De um pequeno buraco ao lado dele saíram dois ratos. Um branco e um preto. Imediatamente, começaram a roer a raiz onde ele estava pendurado. O homem olhou para todos os lados e notou que ao alcance de sua mão havia um arbusto. Era um morango silvestre. Havia nele um único fruto vermelho, apetitoso e fresco. O homem pegou-o, comeu e achou delicioso.

A vida é um fim em si mesma.

Soneto da Fidelidade

 Vinícius de Moraes

sexta-feira, outubro 8th, 2010

De tudo ao meu amor serei atento.

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto…

Que mesmo em face do maior encanto,
que

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive,

Quem sabe a solidão, fim de quem ama, que

Eu possa me dizer do amor que tive,

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito, enquanto dure.

Não nascemos prontos!

segunda-feira, outubro 4th, 2010

O livro é bem interessante e faz alguns questionamentos instigantes: “O grande desafio humano é resistir à sedução do  repouso, pois nascemos para caminhar e nunca para nos satisfazer com as coisas como estão. A insatisfação é um elemento  indispensável para quem, mais do que repetir, deseja criar, inovar, refazer, modificar, aperfeiçoar. Assumir esse compromisso é aceitar o desafio de construir uma existência menos confortável, porém ilimitada e infinitamente mais significativa e  gratificante.”

“Ética é a concepção dos princípios que eu escolho. Moral é a sua prática.”

“De nada adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele perder a sua alma”. Evangelho de Marcos

http://estrategiaempresarial.wordpress.com/2008/08/09/palestra-nao-nascemos-prontos-por-mario-sergio-cortella

Para escrever é preciso ler!

domingo, agosto 1st, 2010

“Quem pergunta quer saber; quem não pergunta quer errar”. Pdre. A. Vieira

Quem não pergunta é porque, em princípio, já deve saber tudo. E quem pensa que sabe tudo…nada sabe. Por muito que saibamos, e por muitas verdades verdadeiras que conheçamos, nunca sabemos tudo. Nem aquilo que pensamos saber é suficiente, porque a realidade é polifacética, many-sided, surpreendente, dinâmica, complexa. Sempre reserva recantos e até mesmo continentes desconhecidos. Perguntar é um excelente exercício intelectual. Para uma pessoa recuperar-se de uma paralisia não é recomendável que repouse, mas que aprenda a mover-se de novo. Para pensar, precisamos mover-nos intelectualmente, sair de nós mesmos, investigar a realidade.

Cercados de informações confusas, entrecruzadas, labirínticas, sentimo-nos zonzos, paramos de pensar. Para vermos o que muitas vezes se passa dentro da nossa cabeça, basta ligar a TV e assistir a essa sucessão de imagens, de temas fantásticos e de enfoques contraditórios, em propagandas, programas e telejornais. Resultado: somos envolvidos pela banalização de tudo, porque tudo passa a ter a mesma importância, ou a mesma “desimportância”, seja uma guerra, seja uma piada, seja uma partida de futebol, seja uma decisão política, seja um novo apartamento, seja um novo presidente, seja uma previsão metereológica…

Há excesso de informações e carência de formação. Excesso de dados e ausência de assimilação. Excesso de imagens e diminuição de conceitos. Excesso de mensagens e desaparecimento de reflexão.

A arte de ler bem gera em nós, com o tempo, uma segunda natureza. Ao nosso “eu” acrescentam-se e mesclam-se contribuições vivas de outras cabeças e corações humanos. Assimilando, digerindo estas contribuições, estaremos nos auto-educando em vista de um aperfeiçoamento pessoal que, por sua vez, se refletirá em nossas ações, e, dentre elas, em tudo aquilo que dizemos e escrevemos. A explicação para esta influência tão decisiva é que não conhecemos as coisas que nos rodeiam de uma forma simplesmente epidérmica. Conhecemos por assimilação, assimilamos o que nos é entregue ao olhar, ao tato, aos ouvidos, e o tornamos nosso pela abstração, que é este poder inato de captar a essência da realidade.

Etimologicamente, “assimilar”, significa que eu me torno semelhante, símil, àquilo com que travo conhecimento. Não é à toa que na linguagem corrente se diz: “Eu me identifiquei com esta pessoa, com este livro, com esta pintura”. Sim, ocorre uma fusão espiritual entre aquilo que conhecemos (as imagens, os sentimentos, os conceitos…) e nós mesmos. E, nesta união, modificamo-nos um pouco, somos de certa maneira alterados – sem perdermos a nossa identidade pessoal, é óbvio.

O poeta Mário Quintana dizia, em tom sério, mas de brincadeira, que algumas pessoas entram na igreja para não rezar. Na mesma linha de raciocínio, podemos dizer que algumas pessoas entram na escola para não estudar, ou entram numa empresa para não trabalhar, ou ingressam no serviço público para não servir o público, ou estudam filosofia para não fazer filosofia, ou são animais racionais e não pensam.  

Pensar é usar a inteligência. Inteligência vem da palavra latina intus-legere, ler (legere) dentro (intus). Dentro de quê? Dentro da realidade.

Pensar não é criar a realidade, é lê-la por dentro. E pensar leva à expressão, na medida em que o esforço de ver a realidade nos obriga a defini-la para nós mesmos usando as nossas próprias palavras, construindo definições, frases, raciocínios.

Escrever é reunir vida nas palavras. Escrevemos aquilo que conseguimos pensar através da experiência pessoal. O esquimó tem pelo menos seis palavras diferentes para designar o gelo. Um pintor sabe diferenciar e nomear vários azuis, vários vermelhos. Quem conhece mais a realidade adquire mais palavras para identificá-la e identificar os seus matizes, a sua complexidade.

A leitura nos afasta do aqui – agora, leva-nos para o além, o além-fronteira, o além-mar, o além-mundo. E é indo para tão longe daqui que o leitor caminha por dentro do livro, para fora do livro. Para dentro da vida.

Gabriel Perissé é alguém que admiro muito, meu ícone intelectual, palestrante, doutor em Filosofia da Educação (USP), escritor autor de vários livros sobre linguagem, escrita criativa, educação, leitura e formação docente e estética.

Este texto é de sua autoria, extraído do livro: Ler, pensar e Escrever.

http://www.perisse.com.br

http://terapia-livros.blogspot.com/

O Mundo de Sofia – Jostein Gaarder

domingo, maio 30th, 2010

Heráclito, contemporâneo de Parmênides, era originário de Éfeso na Ásia Menor (540-480 a.C). Segundo ele, as transformações constantes eram a verdadeira característica da natureza. Podemos dizer que Heráclito confiava mais nas impressões dos sentidos do que Parmênides que afirmava que “nada se transforma e consequentemente as impressões dos sentidos não podem ser dignas de confiança”.

 “Tudo flui”, segundo Heráclito. Tudo está em movimento, e nada dura eternamente. Por isso, “não podemos tomar banho duas vezes nas águas do mesmo rio”. Porque quando entramos no rio pela segunda vez, tanto nós como o rio estamos mudados.

Heráclito explicou, também, que o mundo é caracterizado por contrários constantes. Se nunca estivéssemos doentes, não compreenderíamos o que é a saúde. Se nunca tivéssemos fome, não gostaríamos de comer. Se nunca houvesse guerra, não saberíamos apreciar a paz, e se nunca fosse Inverno, não saberíamos quando chega a Primavera.

É importante que a razão e a reflexão não controlem aquilo que se desenvolve melhor de uma forma livre, espontânea e inconsciente. Uma fábula ilustra bem isto:

Era uma vez uma centopéia que com as suas cem pernas era muito boa a dançar. Quando dançava, os animais reuniam-se no bosque para admirá-la e todos estavam muito impressionados pela sua habilidade. Só um animal não podia suportar que a centopéia dançasse, o sapo…

Como é que posso impedi-la de dançar? Pensou o sapo. Não podia dizer que não gostava da dança nem que era melhor a dançar do que a centopéia. Seria um absurdo. Por fim, tramou um plano terrível.

Escreveu uma carta à centopéia: “Ó incomparável centopéia! Sou um devoto admirador da sua requintada dança. Gostaria de saber como te moves a dançar. Levantas primeiro a perna esquerda número 22 e depois a perna direita número 59? Ou começas por levantar a tua perna direita número 26 antes de levantares a tua perna esquerda número 44? Aguardo ansiosamente uma resposta sua. Saudações cordiais, Sapo.”

Quando a centopéia recebeu esta carta, refletiu pela primeira vez na sua vida no que fazia primeiro quando dançava. Que perna movia em primeiro lugar? E que perna vinha a seguir? O que lhe parece que aconteceu? A centopéia nunca mais voltou a dançar.

É justamente isso que acontece quando a fantasia é sufocada pela razão.