BIOGRAFIAS

Renoir – O pintor da vida

sábado, junho 3rd, 2017

Pierre-Auguste Renoir é chamado de “O pintor da vida”. Ele dizia que no mundo já existia muita tristeza e feiúra e que o dever de um pintor era pintar a beleza.

Renoir era filho de um alfaiate e de uma costureira. Nasceu em 25 de fevereiro de 1841, em Limoges a cidade famosa por suas porcelanas. Eu acredito que o lugar onde vivemos nos influencia: com 13 anos ele parou de estudar e foi trabalhar numa fábrica de porcelanas. Pintou durante 4 anos brasões e motivos florais para os jogos de jantar e de chá que a fábrica vendia rapidamente. Ele resolveu pintar Maria Antonieta, seus vestidos e penteados e os donos da fábrica mandaram parar porque eram desenhos mais demorados, com leques difíceis de pintar e tantos detalhes que compensaria: ele ganhava por hora. Renoir propôs a eles que pagassem por peça pintada. Ele pintava tão rápido e com tanta segurança que as peças venderam tanto que além de ajudar a família ele conseguiu guardar dinheiro.

Depois de passar por outro emprego (pintando temas religiosos), consegui o suficiente para, aos 21 anos, realizar seu sonho: estudar na Escola de Belas Artes de Paris. 

Foi no ateliê de Charles Gleyre que ele fez amizade com Monet, Alfred Sisley e Bazille, pintores que estavam fascinados pela pintura ao ar livre, fascinados em captar a luz e a impressão do momento: os Impressionistas.

Finalmente eles  abandonaram o ateliê e começaram a pintar ao ar livre, principalmente na floresta de Fontainebleu, nos arredores de Paris. Em 1870, Renoir se alistou na cavalaria para lutar na guerra franco-prussiana e um ano depois foi dispensado por motivo de doença. A morte na guerra do amigo Bazille afetou a ele e aos outros pintores impressionistas. Entre 1870 e 1833 Renoir viveu um período de intensa produção Impressionista. Embora sejam desse período várias paisagens, é a vida urbana, a alegria, que inspiravam Renoir.

Sua primeira obra aceita no Salão Oficial de Pintura foi A Esmeralda (1864). A pintura alcançou um relativo sucesso. Pena que ele a destruiu após a exposição.C om a guerra franco-prussiana os amigos Impressionistas se separam e Renoir conhece sua modelo favorita que depois se tornaria sua esposa: Lise Trèbot. Uma de suas pinturas mais conhecidas desse período é “Mulher com a sombrinha” .

Com o relativo sucesso, começou a receber encomendas de retratos.

Em 1872 Renoir obteve bastante sucesso no Salão de Pintura com a obra: “Mulheres parisienses vestidas como Argelinas”. Nesta época ele já morava em Montmartre, bairro boêmio de Paris, onde viveu a maior parte de sua vida e onde  pintou duas de suas mais famosas obras: “A Bailarina” e “O Camarote” , este último foi vendido por 425 francos. É fácil perceber que sua arte começou a “cair no gosto popular” quando três anos depois ele vendeu “O passeio” por 1.200 francos.

Uma de suas obras mundialmente conhecidas, que lhe deu enorme reputação foi “Le moulin de la galette”  pintada em 1876.  Abaixo detalhe do quadro.

Como todos os pintores da época, Renoir sonhava conhecer a Itália e em 1881 ele conseguiu visitar Milão, Roma, Veneza e Napóles. O maior impacto foi ver as obras de Rafael, a quem admirava muito.  

Essa viagem influenciou muito sua obra e Renoir passou a pintar no estilo renascentista, quase inspirado na mitologia clássica. São dessa fase as suas pinturas de Banhistas.

Em suas palavras: “Por volta de 1883, eu tinha esgotado o Impressionismo e finalmente chegado à conclusão que não sabia pintar nem desenhar.”

O Masp possui um lindo quadro de Renoir: Rosa e Azul.

Renoir e sua esposa Aline viveram juntos até a morte dela em 1915 e dele, aos 78 anos, em 1919.  Ele adorava fazer da família seus modelos. Abaixo quadros da esposa e de Coco, o filho caçula que foi muitas vezes retratado.

O casal teve três filhos e Jean Renoir, o filho do meio, tornou-se um grande cineasta, reconhecido internacionalmente e foi autor de vários clássicos do cinema francês, dentre eles: A grande Ilusão, A regra do Jogo, A Marselhesa, A Cadela, French Cancan e A Carruagem de Ouro. Jean Renoir já na maturidade reconheceu que quanto mais longe quis ir da arte do pai  mais perto ficava do pai através de seus filmes. French Cancan é uma das maiores provas dessa afirmação: o filme reproduz o clima e as cores de Montmartre na época do Impressionismo. A mais famosa e bem escrita biografia de Renoir foi escrita por seu filho, Jean Renoir. Uma reconciliação tardia e um amor filial redescoberto.

Renoir também utilizava muito as babás dos filhos como modelo.  Gabrielle é uma das mais famosas, retratada em muitas de suas pinturas.

Um dos grandes amigos de Renoir foi Claude Monet. Este é o retrato que Renoir fez de Madame Monet.

Nos últimos anos de vida, Renoir mudou-se de Montmartre para Cagnes uma região mais quente da França. A artrite foi a doença que minou lentamente suas forças e Renoir tentou se dedicar à escultura devido às fortes dores nas mãos. Mas, como para isso ele precisava de ajuda de dois pintores amigos rapidamente desistiu. Sua grande paixão era a pintura. Ele pedia para amarrarem os pincéis em suas mãos ou pulsos e pintou até o último dia de sua vida.

O gênio de Vincent Van Gogh

terça-feira, junho 7th, 2016

Vincent Van Gogh nasceu em 30 de março em Groot Zundert, na Holanda e morreu em 29 de julho de 1890, em Arles (Auvers-sur-Oise) na França. Em www.wikipedia.com.br a cronologia de sua vida está descrita em detalhes. E aqui não quero falar muito de sua vida atormentada, mas falar um pouco mais de como, através do entendimento do homem, no registro das mais de 800 cartas que deixou, se pode entender a sua obra. A sua pressuposta loucura e depressão estão muito bem contadas no filme de Maurice Pialat – Van Gogh – lançado no Brasil pela Versátil Home Vídeo, que eu tive a alegria de ter traduzido.

Com a morte do pai, em março de 1986, Vincent vai viver em Paris, junto com seu irmão Théo, mais jovem que ele três anos. Os irmãos se pareciam muito fisicamente, mas, eram muito diferentes. A Théo faltava o gênio de Vincent, mas lhe sobrava espírito prático, senso comercial e uma grande facilidade de se relacionar com as pessoas. Théo começou a trabalhar na “Galeria Goupil” e rapidamente assumiu a gerência de uma filial em Montmartre e, cada vez mais, é este irmão que irá apoiar incondicionalmente a Vincent, acreditando desde sempre em seu talento. Théo Van Gogh era vanguardista e foi responsável por exposições de vários artistas impressionistas, embora não tenha conseguido obter sucesso na exposição que realizou para o irmão e nem tampouco, tenha conseguido vender algum dos quadros de Vincent que ele expunha regularmente na galeria.

A esta altura, Vincent havia mudado para algumas cidadezinhas no sul da França, próximas de Paris, em busca de sol e paisagens para suas pinturas. Durante todos estes anos foi Théo quem ajudou Vincent, enviando-lhe o dinheiro necessário para a sobrevivência e a compra de materiais de pintura.

Vincent em um dado momento (1888) pensou em criar uma comunidade de artistas e Paul Gauguin, que ele tinha conhecido através do irmão, foi morar com ele. http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Gauguin.

É célebre a briga que tiveram e a reação de Vincent, que culpabilizando-se corta a ponta da orelha e a envia, ensanguentada, para Gauguin. O que encerrará para sempre a amizade de ambos e a idéia da comunidade de artistas. A internação de Vincent no sanatório de Saint-Rémy- de-Provence, é decorrência deste acontecimento. Embora hospitalizado, Vincent pinta quadros maravilhosos neste período, dentre eles o sublime Iris.

Johanna Van Gogh-Bonger, nasceu em Amsterdã em 4 de outubro de 1862. Completou os estudos de língua inglesa, se tornou professora e foi para Paris, onde encontrou Théo, ambos se apaixonam e se casam em 1889.

Em várias cartas anteriores ao casamento do irmão, Vincent já mencionava seu desespero e angústia por ser um “peso” para o irmão.

“…eu me sinto triste pois mesmo em caso de sucesso, a pintura não trará o tanto que ela custa… trará prazer à mãe, que seu casamento prospere e sua saúde e seu trabalho. É preciso não ficar só. Eu sinto que passou o desejo de casar e de ter filhos – e existem momentos em que me sinto tão melancólico por me sentir assim, com trinta e cinco anos. E às vezes eu detesto esta pintura suja. Foi Richepin que disse um dia : “  O amor pela arte faz perder o amor de verdade “. Acontece de eu me sentir já velho e machucado mas ainda assim, ainda suficientemente apaixonado demais pela pintura, para não me entusiasmar por ela. Para vencer é preciso ambição e a ambição me parece absurda. Ela resultará não sei em que. O que eu queria, sobretudo, era lhe pesar menos – e isto não será impossível no futuro – porque eu espero progredir de maneira que você possa, sem errar, sem se comprometer, acreditar (…)” 1887

Este sentimento de culpa se amplifica com o casamento do irmão e piora com o nascimento do filho de Théo, que aliás, se chamará Vincent, em homenagem, em vida, ao adorado irmão. Em maio de 1890, por recomendação do irmão Théo, Vincent vai para Auvers-sur-Oise, pois um médico – Dr. Gachet – havia sido indicado como excelente para o tratamento das alucinações e depressões de Vincent. Lá chegando, Vincent aluga um quarto em uma hospedaria “ l’auberge Ravoux”. Muitos quadros e muita angústia o levam a dar um tiro no peito em 27 de julho deste ano. Gravemente ferido e desenganado por dois médicos ele, a cada momento mais fraco, espera a chegada do irmão Théo. Quando este chega, passa toda a noite velando por ele e é segurando sua mão que Vincent morre em 29 de julho de 1890.

Vincent é enterrado em Arles, Auvers-sur-Oise e seis meses depois, em 25 de janeiro de 1891, com 34 anos, Théodore Van Gogh morre, louco, vítima de sífilis (ou de tristeza). Enterrado em Paris, algum tempo depois, seu corpo é transportado sob as ordens de Johanna, para ser enterrado ao lado do irmão Vincent. Dizem que ela mandou plantar girassóis ao lado da tumba de Vincent e quando o sol se recolhe, eles se curvam sob a lápide de Théo. Quando visitei a tumba, eles estavam lá…

E foi Johanna (Jo) van Gogh-Bonger, a cunhada de Vincent, a grande responsável pela organização e manutenção das aproximadamente 700 cartas que Vincent escreveu para Théo, além de seus outros pertences e quadros. É a ela que se deve a tradução para o inglês destas cartas, além da primeira exposição com 473 quadros de Vincent Van Gogh no Museu Municipal de Amsterdã, realizada em julho-agosto de 1905. Duas mil pessoas acorreram para vê-la. Ainda riram das telas dele. O que não evitou que o seu nome começasse a ser pronunciado de boca em boca como um fenômeno das artes holandesas, um dos gênios do mundo de hoje. Johanna escreveu também uma biografia sobre Vincent e a continuidade da preservação de sua obra foi feita por seu filho, Vincent.

A L&PM lançou a biografia no Brasil e assim escreveu a sinopse:

Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada

Jo Van Gogh-Bonger (tradução de William Lagos)

Reconhecido após a sua morte como um dos mais importantes pintores de todos os tempos, Vincent van Gogh teve uma vida sombria, perpassada por crises de loucura e depressão. Este volume contém a preciosa biografia escrita pela cunhada Jo van Gogh-Bonger, mulher de Théo, as cartas de Théo ao pintor e a correspondência de Vincent com o pintor e a correspondência de Vincent com o pintor Émile Bernard prefaciadas pelo sobrinho Vincent Willen van Gogh (morto em 1974). Junto com o livro Cartas a Théo (Coleção L&PM Pocket, vol. 21), este livro, pela primeira vez publicado no Brasil, é um documento fundamental para a compreensão da vida e da obra tumultuada e torturada de Vincent van Gogh, esse incrível artista que vale tanto a pena conhecer!

Há Momentos – Clarice Lispector

segunda-feira, março 28th, 2016

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.

Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.

O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.

O Regresso – o ano de DiCaprio

terça-feira, março 22nd, 2016

Di Caprio BunnerIncrivelmente não foi com seu diretor mentor, Martin Scorsese que Leonardo DiCaprio talvez (certeza!) ganhe seu primeiro Oscar, após cinco indicações.Di Caprio Close sangueEsse é o filme em que ele menos fala, mas, suas expressões, o olhar e toda a filmagem, de extrema dureza física, fazem com que mereça sim o Oscar. Se ele não ganhar será uma injustiça imensa e prova de que a Academia é mesmo racista, além de praticamente não indicar negros, não dá o Oscar a atores bonitos! Mesmo que eles sejam competentes.Di Caprio regresso 4O diretor mexicano Alejandro González Iñárritu realizou um belo filme e o melhor, soube escolher o Diretor de fotografia. Ela é sublime e é personagem também.  O branco da neve parece ter luz própria. Trata-se de Emmanuel Lubezki que foi diretor de Birdman e fez parcerias com Terrence Malick, mais recentemente em A Árvore da Vida.O Regresso Di Caprio_neveApesar de ser considerado longo (156 minutos) o tempo corre e o drama é mesmo um filmaço. É um filme emocionante e saber que se baseia em uma história real é mais surpreendente ainda. Hugh Glass (DiCaprio) é uma espécie de guia para americanos que em 1820 caçam animais (peles) em uma região inóspita, montanhosa,  gelada e cheia de  índios violentos.

O clima do grupo já estava bem quente e cheio de animosidade porque Hugh tinha dado a orientação de esconderem as peles e se salvarem, o que carregando as peles seria impossível. Durante a retirada deles, fugindo dos índios, uma ursa ataca Hugh Glass e ele fica muito ferido. Com essa trama já daria um drama e tanto, mas, o pior ainda está por vir.

Di Caprio_caindaO importante é que Glass vai conseguir fazer “O Regresso” e essa volta será carregada de vingança, em especial contra um dos caçadores, Fitzgerald, vivido por um ótimo Tom Hardy.

O Regresso Tom HardyVeja que o filme não é só Di Caprio. Ele é sem dúvida um destaque e a alma do filme, mas, o todo vale muito a pena e assistir no cinema é especial. Aliás, esse filme tem que ser visto no cinema. Saia já à procura do que estiver mais perto. Você não vai se arrepender!

Música clássica – Bach

segunda-feira, outubro 12th, 2015

A música é a essência de muitas artes e seu poder como inspiração é incontestável. Desde os grandes mestres a música mudou muito, se revolucionou mas, quanto mais tempo passa, mais certeza temos de que foram os grandes mestres da música clássica que serviram e servem de fonte inspiradora da música que ouvimos hoje. Pelo menos da boa música! Grandes vultos, grandes mestres, grandes homens da história da música. Dentre esses mestres, muitos mereceriam ser citados, mas, é difícil, muito difícil fazer listas! Vamos começar com alguns que muito admiro e cujas vidas foram tão fascinantes quanto a sua música.

Bach – 1685-1750

Nascido em Eisenach na Alemanha, Johannes Sebastian Bach perdeu a mãe aos nove anos e o pai, que era músico, no ano seguinte.  A partir de então o irmão mais velho, organista, assume a sua educação. Bach aproveitava todas as oportunidades para estudar música e contam que ele descobriu um álbum do irmão e conseguiu copiá-lo, escondido, durante seis meses, à luz do luar.  

Por diversas vezes, sem dinheiro, ele chegou a ir a pé da cidadezinha onde vivia, até Hamburgo assistir a concertos. Desde os 18 anos ele já conseguia se manter sozinho, dando aulas, tocando em igrejas além de compor para elas num ritmo impressionante. Em 1707 ele se tornou organista da Igreja de S. Blasius e casou-se com uma prima, com quem teve sete filhos.  Depois, Bach passa a servir à corte de Veimar onde como organista e compositor permanecerá durante nove anos. Ao regressar de uma viagem de trabalho, toma conhecimento que sua esposa havia morrido.  Tempos depois Bach se casará novamente, com uma hábil copista e boa acompanhadora ao cravo. Deste casamento terá treze filhos mas poucos sobreviverão.

As obras de Bach tem muito de religiosidade intrínseca, mas, a beleza de sua música é universal. Aliás, num ótimo filme de Ingmar Bergman – O Silêncio – pessoas de línguas diferentes passam o filme todo sem se compreender. Até que num dado momento toca uma música linda e alguém diz: Johannes Sebastian Bach. E todos se unem num entendimento acima de todos os idiomas: a universalidade da música. 

Em vida, Bach foi condenado a uma vida de sacrifícios para criar e estudar os filhos e sua vista começou a sofrer pelo excesso de trabalho à luz do luar ou de velas. Aproveitando a visita de um médico inglês submeteu-se a uma cirurgia e ficou praticamente cego o que o abateu muito. Infelizmente ele não sabia que esse era um dos resultados temporários da cirurgia e meses depois sua vista se recuperou completamente, mas, não seu espírito: abatido pela cegueira, pela falta de reconhecimento de sua obra como compositor, ele morreu dez dias depois de recuperar a visão, em 28 de julho de 1740.  Seus filhos que o sobreviveram passaram por grandes dificuldades e tiveram um triste destino: Ana Madalena chegou a viver de esmolas e Regina Suzana, vivia de donativos, inclusive de Beethoven.

O Bach compositor só começou a ser valorizado quando Mendelsohn executou Paixão Segundo  Mateus em 1829.  Depois disso a música se apoderou da verdadeira mina de estudos que é a obra de Bach e todas as suas composições foram publicadas na íntegra. Bach renovou a linguagem musical do Século XVIII e marcou para sempre a história da música e da humanidade.

Bernini um Grande Gênio

sábado, setembro 6th, 2014

Apolo et Dafnie detail 3

Gian Lorenzo Bernini  – simplesmente Bernini nasceu em Nápoles em 7 de dezembro de 1598 e morreu em Roma, em 1680, aos 82 anos. Como Michelangelo, viveu muiito para sua época.

E como Michelangelo, foi pintor, arquiteto e escultor. Embora sua fama maior seja por causa de suas esculturas maravilhosas, que parecem ter vida. Em suas mãos, como um alquimista, ele transformava  o mármore , criando um  efeito de pele e de movimento e por isso,  a força de suas esculturas nos atinge profundamente até hoje.

Seu pai era um escultor mediano mas Bernini,  já na juventude com seus pequenos trabalhos encantava tal ponto que aos oito anos foi levado a Roma e depois de fazer um esboço de São Paulo, foi  considerado pelo Papa Paulo V, um prodígio.

Com isso foi admitido no Vaticano e certamente a escultura grega e as  esculturas com as quais convivia o influenciaram profundamente.

Em Roma, logo o Cardeal Scipione Borghese, sobrinho do Papa  Paulo V, se torna seu mecenas e ele realiza peças para o jardim da Villa Borghese e, mais tarde, parte de suas obras primas ficariam ali sediadas, atravessando os séculos, fazendo sua fama internacional e tornando esse pequeno museu ,uma visita obrigatória.

Bernini_Scipione_Borghese (3)

Nas mãos de Bernini as esculturas passaram a ter movimento e imitar a vida. Seu David está na Galeria Borghese e parece que a qualquer momento vai atirar seu disco sobre nós. Perto dele, até o David de Michelangelo parece estático.

Bernini-David_Borghese (3)

Outra obra emblemática na mesma Galeria é o Rapto de Proserpina que foi feito em apenas um ano! De 1621 a 1622. Nessa escultura o que vemos é a própria recriação da pele feminina. Como pode ele realizar isso? Essa é a pergunta que todos que admiram a obra se perguntam.

Berbibi_Rapto_fronte (3)

Berbibi_Rapto_detalhe perna_1 (3)

Em três anos, (1622 – 1625) outra obra prima, também exposta na Galeria Borghese – Apolo e Dafne, mostra o momento dramático em que Apolo, o deus da luz, desafia Eros o deus do amor para um combate. Apolo, ferido apaixona-se por Dafne, uma ninfa da água, que fizera voto de castidade. Dafne implora a seu pai que a proteja. Ele houve seu apelo e ela escapa de Apolo se transformando em loureiro. Bernini torna essa história de Ouvidio, um momento dramático e de rara beleza.

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ApolloAndDaphne (3)

Entre tantos mecenas ( a maioria papas), foi o papa Urbano VIII o seu principal patrono. Foi ele que encomendou o baldaquino da Basílica de São Pedro. A obra é um marco para o período Barroco italiano e o bronze dourado, que forma as colunas salomônicas foi retirado do teto do Panteão.

Bernini_Baldaquino (3)

Essa obra vai acirrar ainda mais a inimizade que Borromini tinha contra Bernini pois a seu ver, ele, um arquiteto, por direito, deveria ter ganho o trabalho.

Bernini tem outras participações importantes na Basílica de São Pedro: a decoração da nave principal da versão atual da igreja, a cadeira de São Pedro no fundo do altar, as estátuas de São Longuinho e de Constantino ( imperador que oficializou o Cristianismo); o baixo relevo sob a porta principal, o túmulo da condessa Matilda e a Capela do Santíssimo Sacramento. Além dos túmulos de Urbano VIII e o de Alexandre VII.

Mas, a obra maior da Basílica são as colunatas (1656). Uma verdadeira perfeição. Olhando as 284 colunas, da lateral, parece que é apenas uma coluna, tão simetricamente estão posiionadas. Simbolicamente, dois braços abraçando os fiéis católicos.  No alto, 140 esculturas de papas, santos e mártires católicos, desenhados por Bernini e esculpidos por outros  artistas.

Bernini_Colunatas (3)

Outro papa, Inocêncio X, financiou uma das mais belas fontanas de Bernini: a Fontana dei Quattro Fiumi (Quatro Rios) que ficou pronta em 1644 e tem figuras representando os rios Nilo, Ganges, Prata e Danúbio. Todas elas parecem se apoiar no Obelisco Domiciano, de 17 metros de altura, feito no Egito, no século I, e restaurado por Bernini.Bernini_Fonte dos 4 Rios (3)

Bernini_Fonte 4 Rios noite (3)

Obelisco_Bernini_Fonte quatro Rios

Na agitada Piazza Barberini, mais duas fontes feitas pelo escultor. A mais famosa é a Fontana del Trintone (1643). Nela, Tritão, meio homem, meio peixe, bebe água de uma concha, numa cena dramaticamente barroca.Bernini_Piazza_Barberini (3)

Na Piazza di Spagna, em frente  à famosa escadaria, está a Fontana della Barcaccia (1627), em forma de barco, feita em parceria com seu pai, Pietro Bernini.

Bernini_De barcaccia (3)

Outras tantas obras de Bernini estão espalhadas por Roma.  Por exemplo, na Piazza del Popolo, nas reformas da Porta del Popolo e da da igreja de Santa Maria del Popolo (onde estão suas famosas esculturas dos profetas Daniel e Abacuc). No mesmo local Bernini colaborou na finalização das igrejas “gêmeas” de Santa Maria di Montesanto e Santa Maria dei Miracolo além do desenho das ruas em volta.

BERNINI_Igrejas gêmeas

Conta a história que Bernini, tão talentoso, tão disciplinado que entregava as obras no prazo e que não bebia, só tinha um vício: era mulherengo! Isso antes de ser obrigado a casar-se a pedido (!) do papa Urbano VIII.

O auge desse problema foi ele ter se apaixonado pela esposa de um de seus assistentes, Matteo Buonarelli e ambos teriam tido um caso. Enciumado, ele descobriu que também seu irmão mais jovem estava de amores com a dama em questão. Os dois brigaram e o irmão foi exilado, a dama presa depois de receber uma visita misteriosa que rasgou seu rosto. O visitante teria sido mandado por Bernini. Esse é o busto que Bernini fez de Constância Constanza.

Bernini-Constanza-Bonarelli (3)

Esse episódio foi o começo de uma má fase de Bernini. Uma derrocada. A seguir ele foi convidado a realizar um campanário para a Basílica de São Pedro. Apesar de saber que o terreno era pantanoso, aceita o desafio (talvez até porque sua fase não era boa) e constrói a primeira das torres. Poucios meses depois ela começa a se trincar e a demolição é inevitável. Bernini, pela primeira vez, é objeto de escárnio.

 A obra que vai resgatar seu prestígio, será mais uma obra prima: o Extâse de Santa Teresa (1646).

Bernini era um mestre em retratar expressões faciais. Ele teatralizava momentos através de suas esculturas e o Extâse de Santa Teresa é um exemplo máximo disso. A santa estaria em transe religioso, quando um anjo a transpassa com uma lança.

Nas palavras da Santa: “é uma espécie de ferida que faz parecer para a alma como se um dardo entrasse dentro do coração, e se sente como uma grande dor, mas que é muito voluptuosa e jamais se deseja que acabe”.

Bernini Extâse de Santa Tereza (3)

Séculos depois, há interpretações de que se trata do orgasmo e que Bernini, e só Bernini, teria conseguido retratar ou melhor, esculpir o prazer.

Bernini_Extase de Santa Teresa detail (3)

 Discussões à parte, a obra é maravilhosa. Tem uma luz, uma vibração tão intensa que permanece em nós após sua visão.

Sua última obra é um busto de Jesus como Salvator Mundi, em tamanho pouco maior que o natural e com a mão direita levantada em posição de bênção. A obra está  no convento de São Sebastião Fora dos Muros, na Via Ápia de Roma. Bernini a teria oferecido à  rainha Cristina da Suécia, que a recusou, afirmando não ter nada tão precioso para retribuir um presente tão valioso.

Bernini morreu em 28 de novembro de 1680 em Roma e seu funeral foi na Basílica de Santa Maria Maggiore.

Para nossa sorte, que hoje temos acesso a alguns episódios da vida de Bernini, dois anos após sua morte, a rainha Cristina, grande fã de Bernini, encomendou a Filippo Baldinucci que escrevesse sua biografia.

Bernini era bonito, carismático, talentoso. Um verdadeiro rei de Roma. Esse auto retrato é de sua juventude e o olhar já promete toda a intensidade que o caracterizou a vida toda. Um verdadeiro gênio!

Bernini,_self-portrait (3)

 

Mil dias em Veneza

sexta-feira, março 29th, 2013

Veneza noite

Mil dias em Veneza é um livro rápido de ler. Não porque seja muito fininho, mas porque ele leva você em uma viagem, viagem de gastronomia, de bons vinhos, de amor e claro, uma viagem a Veneza. É uma verdadeira história de amor, que é verdadeira! A escritora, Marlena de Blasi, também Chef, é uma jornalista gastronômica americana que recebe a missão de ir a Veneza algumas vezes para escrever matérias. Ela sempre tinha a sensação de que estava indo a um encontro, que em 1993 acaba acontecendo. Um veneziano interessante, como ela diz, o estranho, a descobre e depois de alguns encontros e desencontros a paixão é fulminante. Mas, ela tem que voltar para os Estados Unidos. Tudo se complica e depois se simplifica: é melhor abandonar tudo pelo amor e depois de vender o que tinha, ela vai morar em Veneza. E é ai que os mil dias começam!

Mil dias em Veneza

O legal do livro é que além da história deles ela conta muitas coisas especiais de Veneza e dos italianos. E dá dicas legais de lugares que os turistas acabam não conhecendo e melhor, no final do livro ainda dá algumas receitas imperdíveis. Deliciosas! Vale a pena empreender a viagem!

Música clássica – Puccini

segunda-feira, maio 28th, 2012

Giacomo Puccini nasceu em Lucca em 22 de dezembro de 1858. Sua mãe sempre acreditou em seus dons musicais e o inscreveu no Instituto Musical de Lucca e muito lutou para que ele ganhasse, da rainha Margarida, uma bolsa de estudos para o Conservatório de Milão. Ela estava certa ! Depois de Verdi, Puccini é considerado o maior compositor clássico da Itália. No Conservatório, Puccini se inscreve em um concurso de Ópera em um ato e perde, mas, a obra – Villi – é observada pelo editor de Verdi, Ricordi. É neste período, no início do sucesso, que ele se apaixona pela esposa de um antigo amigo, habitante de Lucca. O romance causará escândalo e eles acabarão se casando em 1904. Na vida profissional uma ópera sem sucesso : Edgar, seguida de uma grande obra : Manon Lescaut. Com esse sucesso ele começa sua carreira na Europa (1383). A partir dai, com dinheiro, uma bela figura, carros, possantes, pelos quais ele era apaixonado, também começa a paixão pelas mulheres. La Bohême, Tosca, Madame Butterfly. Grandes momentos de Puccini que sobreviveram até nossos dias e para o sempre. Apesar de suas aventuras, Puccini viverá até o final da vida com sua esposa e esta, cheia de ciúmes, será a responsável por uma tragédia na vida de ambos. Puccini triste com o acidente de carro ou triste com sua saúde que começava a se deteriorar, buscava estímulo e alegria em uma jovem empregada da casa. Através dos registros, uma relação sem maldade e pura mas, que encheu de ciúmes a esposa. Numa crise a empregada é colocada para fora e se suicida, afogando-se em um lago. Essa sombra vai persegui-los para sempre. No auge de sua doença, médicos são unânimes em pedir que Puccini pare de fumar. Ele não para e a doença avança. Com a garganta tomada por um câncer ele enfim buscará uma clínica em Bruxelas, onde morrerá em 29 de novembro de 1924.

A Versátil lançou um DVD da maravilhosa minisérie de televisão italiana : A vida de Giacomo Puccini. Tudo está brilhantemente retratado, desde a infância até sua consagração e sua paixão pela vida, pela música. Suas principais composições nos emocionam durante o filme e somos levados em sonho, numa trajetória de pura beleza e sensibilidade. Vale assistir !

Amadeo Modigliani um imenso talento

domingo, abril 15th, 2012

Modigliani foi um pintor maldito (entre tantos outros). Judeu italiano, saiu jovem de  Livorno,  pequena cidade da Itália, com pouquíssimo dinheiro que um tio ofereceu e foi tentar a sorte em Paris. Estranhamente, ele não economizava. Quando chegava a um lugar, logo se hospedava em bons hotéis, ou alugava bons estúdios. Até o dinheiro acabar. Os relatos da época contam que ele tinha ótima aparência, com seu terno de veludo, sempre bem barbeado. Era o que se classifica de um belo homem.

Havia esse sentimento, quase de nobreza nele. Talvez porque sua família, muito antes de perder todo o dinheiro em negócios, tenha sido muito rica. Filho de pai italiano, Flaminio Modigliani e de mãe francesa, Eugenie Garsin, ao nascer Modigliani salvou a família de perder todos os objetos da casa, pois havia uma lei que os credores não podiam tomar a cama de uma mulher grávida ou uma mãe com um filho recém-nascido. Quando os oficiais chegaram, Eugenie entrou em trabalho de parto e o pouco de valor que ainda possuíam foi escondido embaixo de sua cama. Ele sempre teve uma relação muito forte com sua mãe, que o educou até dez anos. Amadeo Modigliani viveu em contínua miséria. Vendendo desenhos, esculturas e quadros, em troca de comida mas, principalmente em troca de bebida. Seu ponto fraco desde sempre: haxixe, álcool e mulheres. Provavelmente nessa ordem.

Anos a fio nessa rotina sem rotina só fizeram piorar sua saúde que foi frágil desde pequeno, ele teve pleurisia, tifo e finalmente, tuberculose, que o acompanhou toda a sua curta vida. Numa crise quando tinha quatorze anos, em delírios pedia para ver as pinturas e esculturas de Florença. A mãe prometeu levá-lo e cumpriu sua promessa. Na volta matriculou Modigliani com o melhor mestre de pintura de Livorno: Giugliemo Micheli.

Mas, foi o encontro com o escultor Constantin Brancusi que marcou a carreira de Modigliani: durante muito tempo ele abandonou a pintura e quis ser escultor. Influenciado pelo cubismo, e pela África negra, executou esculturas inspiradas em máscaras africanas, que talvez tenha conhecido no “Musée de l´Homme”. Esse período vai provar a Modigliani que ele não tinha nem força física, nem saúde para persistir na escultura. O pó, o esforço de esculpir prejudicou muito sua saúde, fazendo com ele tivesse que retornar à Itália ou prosseguir em estações de cura. Ao retomar a pintura, a influência das máscaras permaneceu, evidenciada nos olhos de suas pinturas.

Em 1909 executou uma de suas obras mais importantes: “O violoncelista”  exposta no Salão dos Independentes de Paris daquele ano.

Seus nus causaram escândalo e uma exposição organizada em 1917 pelo amigo, o poeta polonês Leopold Zborowski, durou apenas um dia: Os nus na vitrine causaram escândalo e tantas reclamações que a polícia teve que intervir. Modigliani não pode ser classificado em nenhum movimento específico da pintura, seu estilo próprio e autônomo são sua marca registrada.

Muitas mulheres foram retratadas por Modi (como era carinhosamente chamado). Com quase todas teve romances, rápidos ou mais demorados mas todos, conturbados.  A sua grande musa, o verdadeiro amor de sua vida foi Jeanne Hébuterne, jovem católica, cujos pais repudiavam Modigliani. Eles tiveram uma filha em 1918. Ela estava com ele quando o pintor morreu, na noite de 24 de janeiro de 1920, aos 36 anos.

No dia seguinte Jeanne, grávida de nove meses, do segundo filho de Modigliani, suicidou-se ao atirar-se do quinto andar de um edifício. Ambos foram enterrados no Père-Lachaise em Paris.

Existe um filme famoso, com Andy Garcia – magistral no papel – contando a história de Modigliani, sua vida conturbada e a rivalidade com Picasso. É um filme para assistir e rever.  

No Rio de Janeiro, hoje, encerrou-se a exposição Modigliani imagens de uma vida que virá a seguir para o MASP em São Paulo.

São 12 pinturas, 5 esculturas, desenhos e escritos que retratam a história desse imenso talento, disperdiçado.

Biografias no Mundo de Ceci

quinta-feira, novembro 3rd, 2011

Estou muito feliz em “inaugurar” uma nova categoria, prevista desde o início do Mundo de Ceci e ainda não realizada. Biografias! E, dentro dela, as Biografias de Pintores, depois virão escritores, cineastas. Assim,  poderei dividir com meus amigos, um pouco desta grande paixão e, espero poder “contagiar” vocês.

A primeira escolha é sempre muito difícil e poderia ter sido Veermer, Michelangelo, Turner, Delacroix, Monet, Cézanne… Será Van Gogh porque dele eu já tinha material separado e porque sua vida atormentada sempre me fascinou. Com alegria fiz a tradução do filme de Maurice Pialat (DVD da Versátil Home Vídeo) e o fato da literatura ter papel relevante em seu sucesso, também contou nesta escolha. A obra de Van Gogh só pode ser melhor interpretada através das mais de 800 cartas que ele deixou.

As mais significativas são aquelas escritas ao seu irmão Théo (700). Sua cunhada Johanna foi a grande responsável pela publicação destas cartas, traduzindo-as para o inglês e mais, realizou sua primeira exposição em Amsterdã sendo responsável pela manutenção e divulgação de sua obra. Destaco uma frase de Van Gogh: “Quando sinto uma necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas”. Abaixo o post. Espero que vocês gostem!