Empresa Inteligente
Há muito tempo estamos estudando e analisando o funcionamento de uma escola de samba. No início chamou-nos a atenção a expressão das pessoas, quando assistíamos ao desfile das escolas, pela televisão. O que víamos, então, era uma espécie de êxtase em todas elas, parecendo-nos que algo de extraordinário estava acontecendo dentro delas, não apenas de algumas, mas de todas as 4.000, 5.000 que ali estavam.
Algumas dúvidas então surgiram ao ver o “estado de motivação total e absoluto” existente nas expressões faciais, no envolvimento de todas, no embalo físico, na noção de conjunto que elas passavam, etc. Estas dúvidas foram até alimentadas por pessoas mal informadas que nos diziam que aquilo tudo não passava do uso de “substâncias externas”( tóxicos e bebidas alcoólicas) por parte de todas aquelas pessoas. Até que em determinado momento nos demos conta de que 4.000 ou 5.000 pessoas ao mesmo tempo e no mesmo espaço não poderiam estar agindo daquela forma apenas porque ingeriram (VEJA BEM…todas as 4.000!!!) algo que as transformassem tão significativamente. Era preciso encontrar outra, ou outras explicações, para aquele verdadeiro show de motivação grupal.
A partir desta “descoberta” óbvia, passamos a procurar as causas reais do que assistíamos estarrecidos, pessoalmente ou pela televisão. O que que constatamos é tão óbvio que fica até esquisito e quase que sem sentido registar, pois o único segredo que realmente existe lá é o seguinte:
“NA ESCOLA DE SAMBA AS PESSOAS FAZEM TUDO O QUE PODEM PELO PRAZER DE FAZEREM PARTE DO TODO, E DE DAR A SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O GRUPO. EM TROCA, TODAS SÃO TRATADAS COM DIGNIDADE, TODAS SÃO IGUALMENTE IMPORTANTES, OU TODAS SÃO CAMPEÃS, OU NINGUÉM É CAMPEÃO”.
1. Ninguém diz: “Não é problema meu: não é do meu departamento; não fui eu que fiz; não sou pago pra isso; não é meu mesmo, então que se dane etc.”
2. Todo mundo se sente importante e valorizado. O cidadão que empurra o carro alegórico (a ala da força), e que ninguém vê, sente-se tão importante quanto o presidente da escola, e ninguém será mais campeão do que ele.
3. Todo mundo fala a mesma língua: o samba-enredo. Não há problema de comunicação na realização do trabalho de todo mundo.
4. Lá não há esse negócio de “jogar o problema pra qualquer lado, com tanto que não fique em cima de mim”; ao contrário, o problema de um é o problema de todos e cabe a todos tomarem as iniciativas que se fizerem necessárias para resolvê-lo.
5. Não se vê a mediocridade de se “derrubar” o outro para poder sobreviver ou fazer carreira. Cada um faz o melhor de si mesmo e isto basta para que cada um se sinta plenamente realizado e satisfeito com o resultado obtido.
6. Não se escuta “eu”, só se fala em “nós”. Não tem este negócio de fazer brilhareco bobo para a platéia. O importante é a escola e não a pessoa, é o todo e não a parte, e se você quiser aparecer demais em detrimento do grupo, ou pondo em risco o resultado da escola, pode ter certeza de que alguém vai chegar bem pertinho de você e, bem baixinho, dentro do seu ouvido, irá colocar as “coisas nos eixos”. Não se grita com ninguém; ao contrário, é falando bem baixinho que conseguimos corrigir os desvios, sem maiores desgastes ambientais. Um verdadeiro show, dado por pessoas que, na sua grande maioria, nunca estiveram numa sala de aulas. Nunca ninguém investiu um centavo sequer no relacionamento interpessoal destas pessoas, mas eles sabem como resolver rápida e competentemente problemas que surgem.
Extraído do artigo de Eduardo Botelho – A Empresa Inteligente.















